segunda-feira, 7 de junho de 2010

Visibilidade dos Trans




Alguns fatos demonstram que os Trans têm conseguido visibilidade positiva em nossa sociedade. E isso é muito bom. Principalmente se queremos ter uma sociedade mais justa e igualitária.
Os Trans, principalmente os travestis, sempre foram e ainda são vítimas de forte preconceito, inclusive por parte dos próprios gays. Menos estigmatizadas, as drags talvez estejam desempenhando a função de conquistadoras de respeito. A visibilidade parece indicar isso.
Recentemente, o quadro “O Curioso” do programa global “Fantástico” trouxe a história de Luma Andrade, de Russas (CE), que segundo eles é o primeiro travesti com doutorado no Brasil. Formada em Ciências, ela é doutoranda em Educação e tem planos de fazer pós na Sorbonne. Caso raro. Como a mesma contou, desde criança sofreu muito com o preconceito e a marginalização. Na escola, sempre gostava de brincar com as meninas, por isso, alimentava o ódio dos meninos, que batiam nela. Um belo dia, uma professora disse que era bem feito ela ter apanhado: “quem mandou ser assim...”. Para Luma, a escola muitas vezes se torna abominável para o diferente.
Realmente, a incompreensão à sua condição, marginaliza o travesti. Com baixa escolaridade, que pode ser explicada pela desistência por causa das chacotas e/ou violências das quais são vítimas, têm dificuldade de ingresso no emprego formal. Daí para a prática do sexo comercial muitas vezes é um passo.
Luma é uma exceção. E não parece ter sido fácil. Mesmo depois de formada e tendo passado em concurso público, teve dificuldade de assumir o cargo por ser travesti. Diziam que ela não conseguiria. Mas conseguiu.
O mesmo programa mostrou a primeira escola jovem LGBT, criada em Campinas (SP), que nasceu com a proposta de divulgar a cultura gay. Oferece cursos de Revista, Fanzine, Dança, Teatro, Cinema e TV Web. O mais procurado é o de Drag Queen.
E por falar em drags, Dimmy Kieer, o Dicesar do BBB, também protagonizou fato histórico. Tornou-se a primeira a ser capa de revista tradicional de nu masculino. Figurou ao lado dos gêmeos Diego e Dirceu Duarte, em ensaio especial da edição 150 da “G Magazine”.
Tudo bem que aos olhos de pessimistas, as histórias acima ainda figuram em um quadro televisivo que trata o assunto como “curioso” e o tal ensaio especial da drag do BBB com os tais gêmeos se resumiu a praticamente uma foto. Mesmo assim, um luxo!

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Gays e pedofilia


A polêmica em torno dos casos de pedofilia na Igreja Católica e a declaração do secretário de Estado da Santa Sé, cardeal Tarcisio Bertone, de que haveria uma relação entre o desvio sexual e a homossexualidade, levanta uma questão bastante interessante e que requer esclarecimentos.
Não vou comentar a declaração em si e suas implicações (penso que o tema já foi bastante debatido), mas quero provocar uma reflexão sobre o fato de muitas pessoas fazerem a mesma relação que o cardeal.
Isso ocorre em razão de se entender a homossexualidade como uma disfunção, uma doença, e também pelo fato de os casos de pedofilia que se tornam públicos envolverem, com maior frequência, homens adultos e crianças e adolescentes do mesmo sexo.
O importante é deixar claro que, cientificamente, não há maior predisposição para o abuso sexual infantil conforme determinada sexualidade (hetero, homo ou bi). A pedofilia é resultado de uma condição psíquica.
Curioso que o cardeal fez suas afirmações em entrevista coletiva no Chile ao comentar casos entre os quais o mais notável envolveu um sacerdote que mantinha relações sexuais com jovens do sexo feminino. Mas não vamos desviar do assunto... Não existe estudo comprovado que respalde as declarações do cardeal compartilhadas por muitos.
A Classificação Internacional de Doenças (CID-10), da Organização Mundial da Saúde (OMS), define a pedofilia como: “Preferência sexual por crianças, quer se trate de meninos, meninas ou de crianças de um ou do outro sexo, geralmente pré-púberes”.
Há até quem defenda ser a pedofilia um tipo de “orientação sexual”, indo contra o entendimento vigente. Assim, seria uma atração sexual da mesma forma que a heterossexualidade, a homossexualidade e a bissexualidade.
O fato é que uma pessoa pode ser considerada clinicamente como pedófila apenas pela presença de fantasias ou desejos sexuais. E as fronteiras entre infância e adolescência podem variar muito. A OMS, por exemplo, considera adolescência como o período entre 10 e 20 anos de idade.
As causas da pedofilia são indefinidas. Passam por características biológicas e psicológicas (alterações neurológicas desde o nascimento, deficiências hormonais, histórico de abuso sexual na infância ou aspectos comportamentais). Os tratamentos também são imprecisos. Terapias medicinais para controle do desejo sexual mostram alguns resultados, mas são alvo de muitas críticas médicas. A pedofilia também é vista como altamente resistente contra interferência psicológica.
Sobre a incidência de pedófilos na sociedade, pesquisas chegaram a apontar que até 25% dos adultos podem apresentar algum excitamento sexual em relação a crianças. As inúmeras redes de pedofilia com conexões internacionais que vêm sendo descobertas e envolvem os mais variados tipos de indivíduos, denunciam que a polêmica é bem maior do que parece. Assunto “uó” (ruim, desagradável), mas necessário.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Preconceito no futebol




Um dos ambientes mais preconceituosos no Brasil também é um dos espaços mais queridos dos brasileiros: o mundo do futebol. E o assunto preconceito no mundo do futebol tem ganhado a mídia com certa frequência. Recentemente foi o ex-jogador Raí quem comentou o respeito. Ele disse conhecer casos de jogadores vítimas de discriminação por saírem do armário. Chamou de “hipocrisia” a homofobia nos gramados e afirmou torcer para que sociedade, dirigentes de clubes e torcidas mudem de postura.
No entanto, esta mudança não deverá ser fácil. O preconceito domina o planeta. Da Alemanha vem o caso do empresário de jogadores e ex-técnico Rudi Assauer, que deixou clara sua aversão a homossexuais no futebol. Ele disse: "Talvez os gays tenham lugar em outros esportes. No futebol, não". Assauer foi além em sua intolerância afirmando que demitiria um jogador caso ele saísse do armário. "Eu diria: 'você foi corajoso', mas o despediria em seguida". Na verdade, o ex-técnico já expulsou de sua equipe um colaborador gay. Foi quando ele dirigia o Werder Bremen e um dos massagistas revelou sua homossexualidade. "Fui falar com ele e disse: 'Filho, me faça um favor e arrume outro emprego'". Na Itália, o técnico da seleção Marcelo Lippi também expôs seu preconceito ao falar o que pensa sobre homossexualidade e futebol. "Acredito que entre os jogadores não há gays. Em 40 anos de carreira nunca conheci um e nunca ouvi falar. Pode existir alguém que tenha tendências (homossexuais), mas não manifesta publicamente", disse.
No Brasil, Richarlyson tem sofrido a maior perseguição homofóbica do futebol nacional. Nem importa se ele é ou não homossexual. O jogador foi ameaçado de morte e, mesmo ouvindo milhares de vozes gritando ofensas no campo, tem entrado de cabeça erguida e feito seu trabalho.
Os dirigentes do clube, o São Paulo, estão dando aula de profissionalismo: "Não há situação nenhuma envolvendo o Richarlyson. O clube é dirigido de dentro para fora, a gente não resolve nada porque disseram algo na internet", afirmou Marco Aurélio Cunha, dirigente de futebol do clube. "Não temos de pedir nada. O Richarlyson e os demais têm de cumprir seus deveres de atleta, só isso." Disse ainda que "o São Paulo o respeita e o considera". Tá meu bem!

(Curiosidade: esta interjeição de espanto que encerra o artigo foi popularizada no mundo gay pela drag Dimmy Kieer, o Dicesar do BBB10).


Na foto, Richarlyson.

quarta-feira, 3 de março de 2010

O BBB da diversidade?

A atual edição do BBB (Big Brother Brasil, Rede Globo) começou sendo chamada por alguns como o “BBB da diversidade”. Afinal, trouxe a novidade de incluir três homossexuais assumidos: dois masculinos e um feminino.
Sem dúvida, o fato contribui para tornar o tema homossexualidade mais próximo do público em geral e para desmistificar algumas coisas. Apesar das aparências, no entanto, muito ainda tem que mudar até que o preconceito seja realmente extirpado e a diversidade aceita.
Senão, vejamos. A casa incluiu uma drag queen (Dimmy Kieer) e um gay extremamente efeminado. No primeiro caso, ponto positivo para a oportunidade de mostrar que a drag queen não é nenhum ser de outro mundo, mas alguém que pode ganhar a simpatia de muita gente e concorrer com igualdade ao prêmio de R$ 1,5 milhão. Tem até um nome: Dicésar.
No caso do Serginho, o gay extremamente feminino, a coisa muda um pouco de figura. São no mínimo curiosas manifestações, de pessoas que se denominam heterossexuais, de que o rapaz merece levar uns tapas porque “pensa que é mulher”. É mais difícil aceitá-lo. Ele subverte a ordem. Sai de seu lugar de homem e exalta os trejeitos femininos. Muitas vezes, é mais delicado que as próprias mulheres.
O gay efeminado e a drag queen compõem o imaginário do público em geral do que é ser gay. Muita gente acha ainda que todo homossexual gosta de se vestir de mulher. Outras tantas relacionam a fragilidade à homossexualidade. Ambos são tratados como ridículo e levam ao escracho. Mesmo escracho do selinho dado entre Dicésar e Serginho. Volto a ressaltar a importância de expor estas nuances, mas parece que a sociedade está longe de realmente ver com naturalidade o amor entre dois homens e/ou duas mulheres. Algo fora do caricato. Os dois gays masculinos não vão protagonizar um beijo gay romântico, por exemplo. Nem entre eles, nem com qualquer outro brother. Ainda falta um gay fora do estereótipo. O ex-BBB Jean Wyllys era o gay intelectual e estava sozinho na casa. Cumpriu seu papel sendo o primeiro homossexual a se assumir em rede nacional. O médico Marcelo se autodenominava bissexual e preferiu ficar no lado cômodo e aceito de sua sexualidade, dizendo-se interessado por uma sister.
Recaiam sobre a lésbica Angélica as chances de protagonizar uma mudança mais profunda. No entanto, ela acabou sendo eliminada. Morango foge do estereótipo de “sapatão” e isso foi muito bom para mostrar que existem outras cores entre os coloridos. O ideal mesmo é que não houvesse divisão em tribos. Quem sabe numa próxima edição...

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Assumindo antes dos 15

A Secretaria de Estado da Saúde divulgou pesquisa realizada em São Paulo durante a última Parada LGBT apontando que um em cada três gays assume sua sexualidade diferente da hetero antes dos 15 anos de idade.
A pesquisa ouviu 211 pessoas que participaram do evento. Do total, 31,3% disseram ter assumido entre 10 e 14 anos. A maioria assume entre 15 e 19 anos: 62,8%; apenas 5,9% após os 20 anos.
Os gays têm mais facilidade de falar sobre sua sexualidade para a mãe do que para o pai. Dos entrevistados, 71,1% tinham assumido para a mãe.
O estudo também investigou comportamentos de risco e hábitos de prevenção a doenças. Entre as pessoas do sexo masculino, 42% responderam que haviam se relacionado sexualmente com mais de 10 parceiros, e 19,4%, com cinco a nove parceiros. Já entre as mulheres, 35% informaram terem tido relacionamento com mais de 10 parceiros e 30%, com cinco a nove parceiros. Elas vão mais preventivamente ao médico: 61,6%, contra 52,2% deles.
Metade das pessoas ouvidas relatou ser vítima de preconceito, discriminação ou falta de respeito nos serviços de saúde, e 9,95% alegaram falta de atenção, descaso ou desinteresse no atendimento.
A pesquisa confirma tendência na sociedade atual do despertar das pessoas para a sexualidade em idade cada vez mais jovem. Também sugere fragilidade no preparo de profissionais da saúde no atendimento dessas pessoas. Mudanças urgentes são necessárias para evitar problemas de saúde.
A própria secretaria que divulgou o estudo afirma estar desenvolvendo programa específico para atendimento de adolescentes LGBT em todo o estado. Em novembro realizou a capacitação de 800 profissionais de saúde, entre médicos, enfermeiros, psicólogos e dentistas dos serviços de saúde voltados a jovens.
O objetivo é preparar a rede para abordar o adolescente de forma que ele não se sinta discriminado, para que fique à vontade para falar sobre sua conduta sexual ou afetiva, deixando de lado medos e vulnerabilidades que possam levá-lo a comportamentos de riscos à saúde, como o sexo sem preservativo ou abuso de drogas e álcool, por exemplo.
Por causa desse programa, a Opas (Organização Panamericana de Saúde) convidou a secretaria para colaborar na elaboração de diretrizes que irão nortear o atendimento em saúde de adolescentes e jovens em toda a América Latina. Abalou!

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

‘Prefiro filho ladrão a gay’


Com certeza você já deve ter ouvido a frase: "Prefiro ter filho ladrão a ter filho gay". Recebi um e-mail com um texto que começava com esta frase e falava um pouco da origem dela.
Trabalho de pesquisa publicado pela PUC Minas mostra que o pensamento é mais antigo do que parece. Segundo a pesquisadora Érika Pretes, vem do Brasil Colônia, quando havia o crime de sodomia. Na época, enquanto o ladrão respondia sozinho por seu crime, os familiares do sodomita também eram punidos e perdiam todos os seus pertences.
O estudo “História da Criminalização da Homossexualidade no Brasil: da Sodomia ao Homossexualismo” mostra a participação de instituições como o Estado e a Igreja na criação e perpetuação de discursos e práticas homofóbicas.
A relação sexual entre pessoas do mesmo sexo inicialmente era tida como pecado-delito. Quando a homossexualidade deixou de ser crime, houve apenas a substituição de uma forma de preconceito por outra e o preconceito em forma de lei passou a vir sob forma de falsa análise médico-científica.
Segundo a pesquisa, a partir de então as relações foram encaradas como um desvio biológico da sexualidade humana. A ciência buscou se distanciar da imagem criminalizada e pecadora produzindo denominações, daí surge o termo homossexualismo. A mudança foi falsamente progressista, não mudando em nada o preconceito. Os homossexuais continuaram sendo discriminados e passaram a ser tratados à força.
O estudo rendeu uma bolsa CNPQ para a pesquisadora Érika Pretes desenvolver nova pesquisa, desta vez sobre a criminalização da homofobia, atualmente em análise no Senado.
Por falar no PLC 122, a enquete sobre o tema promovida no site da Casa foi encerrada com resultado apertado, mas desfavorável à comunidade LGBT. A resposta contrária à aprovação do projeto venceu com 51,54% contra 48,46%. Foram contabilizadas mais de 400 mil participações.

sábado, 5 de dezembro de 2009

O exemplo argentino


Os argentinos parecem estar um passo à frente na batalha contra o preconceito. Recentemente, uma transexual foi escolhida “Mulher do Ano”. Isso mesmo. Entre 12 concorrentes, a transexual Marcela Romero ficou com o título. Foi escolhida entre mulheres selecionadas por sua luta contra pobreza e em defesa do meio ambiente, entre outras causas.
Em agosto, Marcela obteve documento de identidade com nome feminino depois de dez anos de luta judicial para que sua mudança de sexo fosse reconhecida. A nomeação como “Mulher do Ano”veio da Câmara dos Deputados, mais precisamente da Comissão da Família e da Mulher.
Nem por isso os obstáculos desapareceram. No momento da entrega do título, enquanto alguns aplaudiam, outros presentes se retiravam do local.
E na última semana, o anunciado primeiro casamento civil de homossexuais na América Latina, que aconteceria na terça-feira em Buenos Aires, sofreu um revés. A juíza Marta Gómez Alsina decretou uma medida cautelar até que se decida sobre a ação apresentada contra a decisão de outra magistrada, que julgou "inconstitucionais" dois artigos do Código Civil estabelecendo que para o matrimônio "é necessário o consentimento de duas pessoas de sexos distintos". Alsina garantiu que sua decisão não constitui discriminação e destacou que a lei argentina já confere às pessoas do mesmo sexo a opção de celebrar a união civil.
A juíza Gabriela Seijas tinha autorizado, há aproximadamente duas semanas, o registro civil do casamento de Alejandro Freyre, de 39 anos, com José María Di Bello, 41, em uma decisão inédita na Argentina e na América Latina.
Em Buenos Aires vigora desde 2003 a união civil entre homossexuais, que permite aos cônjuges o acesso aos direitos sociais, como pensão, mas restringe alguns procedimentos, como a adoção.
Um projeto de lei para o casamento gay é debatido na Câmara dos Deputados, mas – como no Brasil – empaca na falta de acordo entre os principais blocos.