quarta-feira, 24 de outubro de 2012

De volta aos Trans


 
A proposta deste espaço, desde o início, sempre foi fugir dos rótulos que aprisionam. No entanto, vivemos em uma sociedade que alivia suas angústias e ansiedades quando as nomeia. Por isso, e por entender que informação combate preconceitos, considero importante voltar às questões do T da sigla LGBT.

Os Transgêneros formam um grupo bastante diverso e, no entanto, figuram juntos, o que para muitos é um erro. Se já é difícil entender a diferença entre um homossexual e um transexual, o que dirá diferenciar transexual de travesti, drag queen de crossdresser.

            Quando falamos em homossexualidade (masculina ou feminina) e em bissexualidade estamos no campo da chamada “orientação sexual”. A pessoa nasceu com determinado sexo (gênero) e tem seu interesse sexual orientado para o mesmo sexo. Ou para ambos, no caso da bissexualidade. No entanto, tal pessoa não quer mudar de sexo, por exemplo. Fato que acontece com os transexuais, que acreditam ter nascido com o sexo errado.

            Este fato muda muita coisa. A transexualidade e a travestilidade referem-se, portanto, à “identidade de gênero”, ou seja, uma questão ligada à identificação com o gênero (sexo). Vivemos em uma cultura que entende as pessoas como homem ou mulher, masculino ou feminino. Por isso, a dificuldade de entender e encaixar quem de algum modo se desvia de tais classificações.

            Para se ter uma ideia, existe a Campanha Internacional Stop Trans Pathologization pela despatologização das identidades trans (travestis, transexuais e transgêneros). Patologia refere-se a doença, portanto, a proposta é que as identidades trans deixem de ser consideradas doenças no DSM - Manual Diagnóstico e Estatístico das Doenças Mentais, da Associação Americana de Psiquiatria, e na CID - Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, da Organização Mundial de Saúde.

            A França foi o primeiro país que deixou de considerar a transexualidade um transtorno mental. Isso aconteceu em 2010.

O transexual, então, é a pessoa que identifica-se com o gênero diferente do qual nasceu. Quer viver e ser aceito como alguém do sexo oposto. O travesti veste roupas, algumas vezes usa nome, corte de cabelo, modos e timbre de voz do sexo oposto, bem como gratifica-se sexualmente. 

Drag queens  e Transformistas vestem-se como o sexo oposto para fins artístico-comerciais. Os primeiros de maneira cômica e exagerada. Ambos, sem que isso tenha necessariamente a ver com sua orientação sexual.

Temos ainda os crossdressers. Pessoas que vestem roupa ou usam objetos associados ao sexo oposto seja para vivenciá-lo, por motivos profissionais ou ainda para obter gratificação sexual. Bom, é isso. E viva a diversidade!   

 

sábado, 29 de setembro de 2012

‘Sintomas’ homossexuais



Na Malásia, o Ministério da Educação recomenda uma lista de características ou “sintomas” para ajudar os pais a identificarem se seus filhos são homossexuais. A tal lista, segundo o “Global Post”, foi distribuída aos participantes de um seminário com o tema: “Como os pais devem abordar a questão dos LGBTs”, além de publicada no diário chinês “Sin Chew Daily”.

Entre os meninos, os “sintomas” são: ter um corpo musculoso e gostar de exibi-lo usando camisas com gola “V” e sem mangas; preferir roupas justas e de cores claras; sentir atração por homens; e gostar de usar bolsas grandes, parecidas com as usadas por mulheres.
Já entre as meninas: atração por mulheres; distanciar-se de outras mulheres que não sejam suas companhias femininas; gostar de sair, fazer refeições e dormir na companhia de mulheres; e não ter afeto por homens.

O Ministério da Educação da Malásia recomenda ainda que, uma vez identificado o “sintoma”, os pais devem dar “atenção imediata”. Segundo o órgão, jovens são facilmente influenciados por sites e blogs ligados aos grupos LGBTs e a preocupação é que a homossexualidade se espalhe entre os escolares.

Interessante como os “sintomas” dos meninos são descritos de maneira mais abrangente, destacando características da vestimenta enquanto os das meninas giram exclusivamente em torno das relações.

País predominantemente muçulmano conservador, a Malásia tem leis que criminalizam a homossexualidade e permitem ao Estado punir gays com até 20 anos de prisão. No mundo, 78 países consideram a prática de sexo entre pessoas do mesmo gênero um ato ilegal. Em cinco países implica em pena de morte. São eles: Irã, Arábia Saudita, Iêmen, Mauritânia e Sudão, além das regiões norte da Nigéria e sul da Somália. Os dados são da Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais (ILGA).

Dez nações, no entanto, permitem o casamento homossexual, entre elas a Argentina, e em 12 a adoção de crianças por casais homossexuais é admitida, entre estas o Brasil. Um total de 18 países possuem legislação específica para as pessoas que passaram por um processo de mudança de gênero.
Voltando à Malásia, este ano, o governo disse que personagens gays podem ser representados em filmes e na televisão. Mas com uma condição: ao final da história, o personagem deve se arrepender de sua homossexualidade e virar heterossexual.


domingo, 9 de setembro de 2012

Pai de saia




A notícia de que um pai estaria usando saia porque seu filho de cinco anos gosta de usar vestidos provocou reações as mais diversas recentemente. O caso aconteceu em um vilarejo no sul da Alemanha e a notícia rodou o mundo. O alemão teria percebido que seu filho gosta de usar vestidos e era ridicularizado por isso no jardim da infância. A saída que ele encontrou para oferecer apoio ao menino e diminuir seu sofrimento foi começar a usar saias.

O garoto também teria resolvido pintar as unhas e o pai permitido que o filho pintasse as dele. E mais: o menino teria indagado se poderia continuar se vestindo diferente. Foi quando o pai, não querendo dizer ao filho que não podia usar vestidos, resolveu ele mesmo usar saias. Segundo o pai, desta maneira o garoto se sente mais confiante.

O fato abre discussões que enveredam pela Psicologia e pela Sociologia. A atitude do pai pode ser encarada como prova de amor e apoio ao filho, mas também como irresponsabilidade. Há quem defenda que ele pode estar ignorando algum conflito psicológico, não necessariamente sexual, e o mais recomendável seria recorrer à avaliação de um profissional.

Diferenciar sexo e gênero também pode ajudar a entender o assunto.  Ao falarmos de sexo, nos referimos aos aspectos físicos dos indivíduos, às características biológicas de macho e de fêmea. Literalmente, mulheres têm vagina e homens têm pênis. Só as mulheres podem engravidar.

A partir do conhecimento dessas diferenças sexuais, a sociedade estabelece o que é ser homem e o que é ser mulher, define o masculino e o feminino. O gênero então é uma construção social e, por isso, muda de uma época para outra e de um lugar para outro. Depende dos costumes, da experiência das pessoas. Varia a partir da política e da religião, entre vários outros fatores históricos. O gênero diz respeito ao papel social de uma pessoa baseado em seu sexo aparente, mas também em outros fatores, como culturais e interpessoais. O sentimento de pertencer a um gênero diferente do biológico, por exemplo, é o caso dos transexuais. Portanto, o fato de um pai usar saia envolve bem mais coisas que o simples poder de chocar. Fica a reflexão de como encarar e reagir a ele.  

domingo, 19 de agosto de 2012

Guia de etiqueta para héteros


Com a frequência cada vez mais comum de heterossexuais em baladas gays, foi divulgado recentemente pela revista “Vice” um inusitado guia de etiqueta. Prático e engraçado. Agressivo e, por vezes, cruel.

O “Guia de Etiqueta para Héteros em Bares Gays”, de Brian Moylan, dá dicas de como se comportar em lugares LGBT. Ele começa lembrando que os homossexuais tiveram que aprender o certos e o errado em ambientes majoritariamente héteros, mas que o contrário nem sempre pode ser dito.

Fala primeiro com as moças. Afirma que mulheres, mesmo sendo divertidas e muito simpáticas, num bar ou festa gay são geralmente invisíveis. E recomenda: nada de dar chiliques, tente lidar com isso. Terão que ficar na fila do banheiro menor e o barman (provavelmente sem camisa) vai atender ao pedido delas por último.

Outra dica é ir a um bar gay sempre com um grupo. E explica: assim, se alguns dos rapazes se derem bem, você tem outras pessoas pra conversar. Fala ainda de moças que decidem fazer sua festa num bar gay. Diz: pra você pode ser só uma noite de loucura, mas essa é a nossa vida. E completa: por favor, respeite isso. Não vá aparecer num gogo bar gritando e empurrando os outros frequentadores.

O guia beira o preconceito e reforça estereótipos. Cria guetos. No entanto, também nos fala de comportamentos de certa forma típicos e provoca certa reflexão. Na sequência, alguns toques para os rapazes.

Começa concordando: não é porque um homem hétero está num bar gay que ele é gay. Então, pode parar de segurar sua namorada como se ela fosse um salva-vidas. Diz: você não precisa ficar apertando a mão dela ou beijando ela. A gente já sabe que você é hétero. E destila o veneno: os sapatos que você está usando já nos disseram isso. Se a gente quisesse assistir casais héteros, ia pra qualquer outro lugar do universo.

E a melhor: não é porque os gays do bar sabem que o cara é hétero que ele não vai levar cantadas. Na verdade, isso provavelmente vai aumentar as chances dos caras quererem papear com ele (Menos se você for feio. Aí está salvo).   E aconselha: é só deixar essas almas iludidas darem em cima de você, declinando, mas sem ser grosso. Você pode até conseguir uns drinks grátis. Por último: esquece o martini de maçã e pede uma cerveja ou uma tônica com vodca como todo mundo.

sábado, 28 de julho de 2012

Banheiro para gays


A cada dia vemos brotar na sociedade discussões que há bem pouco tempo nem se imaginava. Isso é bom!Comprova que as pessoas estão se permitindo mais.

Procuro sempre reforçar a ideia de tolerância e nada melhor do que se por no lugar do outro, ou pelo menos tentar, para colocá-la em prática. O exercício não é fácil, mas vale a pena. Em algum momento de nossas vidas, com certeza seremos de alguma maneira alvo da intolerância se não conseguirmos erradicá-la.

Um fato curioso ocorrido no Acre provoca uma reflexão interessante. O governo daquele estado pensou em criar banheiros exclusivos para gays durante uma feira agropecuária. Iniciativa louvável? Os organizadores do evento pensaram que sim. Afinal, resolveriam no mínimo dois problemas: tirariam homossexuais do banheiro masculino e travestis/transexuais do feminino. Simples assim.

Nem tanto. A Ahac (Associação de Homossexuais do Acre) manifestou-se contra. Entendeu que a criação de banheiros para gays seria uma forma de excluí-los em um gueto. Homofobia internalizada? Ridicularização da diversidade? Para a associação, a medida só serviria para estigmatizar. Transexuais e travestis se entendem como mulheres e têm o direito de usar o banheiro feminino. Heteros e homos podem frequentar o mesmo espaço. Sem falar na situação inusitada de se identificar quem é quem.             

Fico pensando se daqui a alguns anos, veremos estas discussões com espanto por estarem bem resolvidas. Principalmente, em razão das mudanças rápidas pelas quais passamos com a evolução tecnológica. Ou continuaremos engatinhando nas questões comportamentais? Creio que não.

Acredito que a informação, tão acessível hoje em dia, vá promovendo mudanças. Interessante que a situação descrita aconteceu no Acre. Em todos os cantos, os mais variados temas ganham espaço.

Vem do Pará outro fato que gostaria de destacar hoje. O governo lançou campanha este mês pela inclusão do “nome social” de estudantes travestis e transexuais nas escolas públicas estaduais.

A restrição do uso do nome social para transgêneros nas escolas é apontada como o principal motivo da evasão escolar. Estudos da Unesco apontam que 90% dos jovens nesta condição não enxergam a escola como espaço no qual eles possam conviver.

domingo, 8 de julho de 2012

Violência aqui

“A gente vê esse tipo de coisa em vários lugares, mas nunca imagina que vai acontecer com a gente.” A fala de uma mãe em Araçatuba (SP) cujo filho foi vítima de socos, chutes e uma garrafada na cabeça por causa de seus trejeitos ilustra bem que a intolerância tem terreno fértil em todos os lugares. Não está longe de ninguém.

O caso aconteceu recentemente com um estudante de 16 anos. Cinco rapazes agrediram o adolescente no bairro Dona Amélia por ele ser homossexual.

O que leva alguém a usar de violência contra outra pessoa? Segundo dados da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, foram registradas 1.259 denúncias de violência contra gays em 2011. Isso dá uma média de 3,4 casos por dia. O estado de São Paulo liderou a lista com 210 queixas, seguido por Piauí, com 113, Bahia e Minas Gerais, 105 cada, e Rio de Janeiro, 96. A maioria dos agressores (61,9%) é conhecida da vítima. Do total de vítimas, 34% são do gênero masculino, 34,5% do gênero feminino, 10,6% travestis, 2,1% de transexuais e 18,9% não informaram. A maioria das denúncias (41,9%) foi feita ao Disque 100 pela própria vítima.


O médico Dráuzio Varella fala sobre o tema violência contra homossexuais em seu site. Ele começa dizendo que “A homossexualidade é uma ilha cercada de ignorância por todos os lados.” Sempre achei que informação e conhecimento evitam as atitudes intolerantes. Não é necessário aprovar, mas respeitar.

Alguns fatos importantes são destacados por Varella, que valem a pena reproduzir. Primeiro a existência de mulheres e homens homossexuais em todas as civilizações e em qualquer época. Depois a questão do que é ou não antinatural. “Se partirmos de princípio tão frágil, como justificar a prática de sexo anal entre heterossexuais? E o sexo oral? E o beijo na boca? Deus não teria criado a boca para comer e a língua para articular palavras?”

Passa ainda pela grande variedade de espécies animais que vivenciam a homossexualidade, o que coloca por terra a teoria de perversão humana. E explica que a sexualidade não é opção. Que não podemos controlar nosso desejo.

Finalizo com um trecho bastante provocativo do texto do médico: “Os que se sentem ultrajados pela presença de homossexuais na vizinhança, que procurem dentro das próprias inclinações sexuais as razões para justificar o ultraje. Ao contrário dos conturbados e inseguros, mulheres e homens em paz com a sexualidade pessoal costumam aceitar a alheia com respeito e naturalidade.”

sábado, 16 de junho de 2012

O peso das palavras


O termo “casamento” carrega um peso considerável que vale a pena certa reflexão. Associado à palavra “gay”, adquire contornos extremamente provocantes. Senão vejamos: o dicionário (Aurélio, pelo menos) define como “união solene entre pessoas de sexos diferentes, com legitimação religiosa e/ou civil”. É aí que as coisas se complicam.

(Só para registrar, o dicionário Priberam on-line tem outra definição: “contrato de união ou vínculo entre duas pessoas que institui deveres conjugais”.)

Mas as coisas se complicam pois o termo casamento mistura leis e crenças. Envolve, por exemplo, o conceito de família, bastante questionado hoje em dia e que se encontra em verdadeira mutação. Um casal de lésbicas que concebe um filho por reprodução assistida não é uma família?

Nos últimos dias, o tema ganhou espaço nesta Folha da Região. O primeiro casamento entre dois homens em Araçatuba gerou assunto até para editorial.

O casamento também é uma celebração que segue regras de uma determinada religião. Não depende da lei civil ou dos homens. Entre católicos, é um dos sete sacramentos. Uma união santa e indissolúvel.   

Ao redor do mundo, entre as religiões, até existem congregações religiosas que abençoam uniões entre pessoas do mesmo sexo. No entanto, a maioria esmagadora das denominações cristãs são oficialmente contra o casamento gay.

Para a lei dos homens, no Brasil e no estado de São Paulo, o casamento é formalizado por meio de uma celebração realizada por um juiz de paz. Os noivos recebem uma certidão de casamento. Ao contrário da união estável, que se estabelece a partir do momento que duas pessoas decidem viver juntas.

O casamento tem implicações em possível separação e efeitos em caso de morte. Se o casal possui filhos menores, ele só pode ser extinto perante o Poder Judiciário. Na dissolução em vida, existe o direito de pensão alimentícia. Em caso de morte, o outro cônjuge pode receber herança de acordo com o regime de comunhão ou separação de bens. Mesmo o estado civil, só muda a partir do casamento. Se o casal está em uma relação de união estável, eles mantêm suas condições anteriores, seja de solteiro, divorciado, separado ou viúvo.

Enquanto LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros) se envolvem com tal discussão, o número de divórcios supera o de casamentos, segundo as estatísticas. Termino relembrando a frase de Luis Fernando Veríssimo: “Quando o casamento parecia a caminho de se tornar obsoleto, substituído pela coabitação sem nenhum significado maior, chegam os gays para acabar com essa pouca-vergonha”.