quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Mundos gay e hétero se aproximam


Aos poucos torna-se difícil dizer quem é gay, bissexual ou hétero. Ponto para a diversidade. Na medida em que o preconceito perde um pouco sua força, a tolerância ganha espaço. E a aceitação e o respeito têm vindo pelo comportamento.
Há quem comente na comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros) que a “cena gay” vem sendo invadida cada vez mais pelos héteros. São homens e mulheres interessados em boa música e gente animada. Ao mesmo tempo, muitos gays e lésbicas preferem as baladas héteros para se divertir. Isso parece ser bastante positivo, pois aproxima as pessoas no que elas têm de igual, mas respeitando suas diferenças. E melhor: pode estar apontando para o fim dos guetos.
A cultura em geral também sinaliza isso, apesar de um interesse econômico poder estar escondido por trás de aparentes iniciativas positivas. De qualquer forma, comemoremos o que há de bom.
Tem crescido o número de personagens homossexuais retratados pela TV norte-americana. Segundo pesquisas da Aliança Gay e Lésbica contra a Difamação (Glaad), 18 personagens LGBT serão retratados em 2010 nos canais abertos dos Estados Unidos. O número representa 3% do total, comparados com 2,6% do último ano.
O fato promissor nem é o aumento na quantidade de personagens gays na TV, mas a oportunidade de divulgar histórias diversas que consigam retratar a realidade dos homossexuais. Só assim a aceitação e o respeito irão aumentar. Através do conhecimento.
O rapper Kanye West afirmou recentemente que, no âmbito da Moda, a palavra “gay” deverá ser usada no futuro como sinônimo de “ter estilo”. Segundo ele, crianças dirão “Cara, essas calças são gay”, como um elogio. Mas West mesmo também disse que a maneira com uma pessoa se veste não tem a ver com a orientação sexual dela. "Há muitos gays que não se vestem nem um pouco bem e eu me visto melhor que muitos deles", ressaltou. Acusações de que o rapper mira os gays para vender mais CDs a parte, o legal é confirmar que – por um interesse ou por outro – os “mundos” se aproximam. E acredito que isso só trás benefícios para todas as diversas partes e suas diferenças.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Teoria Queer

Você já ouviu falar em Teoria Queer? A denominação surgiu quando a feminista Teresa de Laurentis participou de uma conferência em 1990 na Universidade da Califórnia teorizando sobre as sexualidades gays e lésbicas.
Fortemente influenciada pela obra de Michel Foucault, problematiza a noção de gênero e nem sempre tem sido bem aceita dentro e fora da comunidade gay, pois coloca em xeque conceitos como os de "identidade" e "sexo". Incomoda por desconstruir qualquer definição – de homem, de mulher, de hétero, de gay, de bissexual, de trans...
Por que "queer"? Esta palavra, de origem inglesa, significa, literalmente, "estranho" ou "incomum". Foi usada como gíria em meados do século XX para referir-se aos homossexuais, sobretudo os masculinos. Há quem defenda que houve uma sobreposição das palavras "queer" com "queen" (rainha), o que designaria um homossexual afeminado que seria, simultaneamente, rainha e estranho.
É assumida por uma vertente dos movimentos homossexuais para caracterizar oposição e contestação. Para estes, significa colocar-se contra a normalização. Seu alvo mais imediato é a heteronormatividade, no entanto, também não escapa a estabilidade proposta pela política de identidade do movimento homossexual dominante. Refere-se à diferença que não quer ser assimilada ou tolerada.
A Teoria Queer pensa a sexualidade como uma construção histórica. A orientação sexual e a identidade de gênero não estão previstas na genética e nem podem ser consideradas como condição compartilhada por todos. Existe uma sexualidade para cada sujeito, ainda que seja possível encontrar pessoas com gostos e inclinações semelhantes. É essa semelhança que permite, por exemplo, agrupar os gays em "afeminados", "barbies", "ursos", "versáteis" etc. Porém, não se pode confundir a semelhança com a essência. São convenções sociais compartilhadas por determinados grupos, passíveis, portanto, de mudanças.
A proposta é abolir as dualidades do tipo macho/fêmea e masculino/feminino. Seu caráter transgressor afirma um novo tempo, no qual é preciso pensar outras formas de nomear sem classificar. Não é apenas assumir que as posições de gênero e sexuais se multiplicaram, mas admitir que as fronteiras vêm sendo constantemente atravessadas, quando não é exatamente na fronteira que alguns sujeitos vivem – e sem que haja uma patologia.

DSTs e o risco de homens homossexuais


O Ministério da Saúde divulgou recentemente a Pesquisa de Conhecimentos, Atitudes e Práticas da População Brasileira de 15 a 64 anos. Uma informação importante, não sei se tão surpreendente, foi a de que os homens brasileiros têm 31,2% mais riscos de contrair doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) do que as mulheres.
Segundo o estudo, manter relações sexuais com parceiros do mesmo sexo mais do que dobra a probabilidade. E se o indivíduo tiver mais de dez parceiros na vida tem 65% mais possibilidade de contrair alguma doença sexualmente transmissível.
Ou seja, o homossexual masculino com vida sexual ativa corre riscos consideráveis se não tomar os devidos cuidados. No mínimo uso de camisinha em todos os contatos (inclusive sexo oral) e, é de se avaliar com carinho, a redução do número de parceiros.
Outras constatações importantes na pesquisa: 18% dos homens não procuram tratamento ao apresentarem sintomas de DST . Entre as mulheres, 11,4% não procuram tratamento. Essas doenças aumentam em 18 vezes o risco de infecção pelo HIV, vírus causador da Aids.
Quando desconfiam que podem estar com alguma DST, 25% dos homens se automedicam. Entre as mulheres, esse número é de 1%. A prática é arriscada, já que pode mascarar a doença ou mesmo piorar o quadro.
O levantamento informa ainda que pacientes com indícios de DST “nem sempre recebem orientações adequadas”. Apenas 30% dos homens e 31,7% das mulheres que procuraram atendimento foram orientados a fazer o teste de HIV. A recomendação para o exame de sífilis foi ainda menor: 24,3% para eles e 22,5% para elas.
Entre homens e mulheres que recorreram aos consultórios, 40% não foram sequer informados sobre a necessidade do uso de preservativo e de comunicar a doença aos parceiros.
Para as pessoas que têm dificuldade de contar para o parceiro que estão infectadas, o Ministério da Saúde criou cartões virtuais, que fazem parte da campanha “Muito prazer, sexo sem DST”. O hotsite da campanha é www.aids.gov.br/muitoprazer, com informações gerais sobre prevenção e tratamento das DSTs. Vale conferir.

Lesbian chic, andróginos e a moda


Diversas campanhas publicitárias de moda têm explorado situações que remetem às lesbian chic e aos andróginos numa recorrência curiosa. No Brasil, as atrizes Juliana Paes e Cléo Pires, em alta por causa da novela “Caminho das Índias”, aparecem na campanha de verão 2010 da Arezzo. Vestidas de nadadoras, em clima insinuante dentro da piscina.
As marcas internacionais abusam do recurso, que nem é tão novo. A onda atual foi iniciada por Versace na campanha de inverno de 2008, com as modelos Isabeli Fontana e Natalia Vodianova. O uso de modelos em looks andróginos também tem sido bastante recorrente.
“Lesbian chic” é a expressão utilizada no meio gay para denominar as lésbicas “finas”, geralmente femininas, muitas vezes executivas e mais ligadas ao consumo em geral e de moda em particular. “Andróginos” são as pessoas que misturam características femininas e masculinas.
Desde a década de 30 que as mulheres usam alguma peça do guarda-roupa masculino. Já a homossexualidade feminina é explorada desde que inventaram as fotos. Este último tema é um verdadeiro fetiche do público masculino: duas belas mulheres em poses sensuais.
Os exemplos continuam. A campanha de inverno 2009 da Chanel sugere um clima entre as modelos Freja Beha Erichsen e Heidi Mount. A campanha do italiano Cesare Paciotti é mais explícita, com Constance Jablonski e Eniko Mihalik entrelaçando braços e pernas.
No campo da androginia, a modelo britânica Agyness Deyn foi fotografada para a campanha da Uniqlo ao lado do modelo Luke Worral. As roupas até são diferentes, mas a pose e os cabelos são indiferenciados.
A top brasileira Raquel Zimmermann aparece representando as linhas feminina e masculina da grife de Gaultier. Ela que já declarou gostar da mistura de elementos masculinos em seu visual. Gaultier, por sua vez, é conhecido por brincar com os gêneros feminino e masculino.
A tendência não parece estar perdendo força e promete continuar pelo menos mais uma estação. O fato parece positivo. Com isso, é possível que se ajude a quebrar padrões visuais (e comportamentais) rígidos que ainda persistem nas sociedades em geral. E fugir de “rótulos”, termo usado pela própria atriz Juliana Paes em entrevista sobre a campanha publicitária que protagoniza. Ela disse que não se prende a eles. Intrigante é que na sequência, ao ser questionada sobre uma possível experiência homossexual, saiu com: “sobre isso não vou falar”. Claro que se trata de algo pessoal, íntimo, mas... por que não falar já que não se prende a eles?

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Ex-gay existe?


A pergunta deve estar na mente de muita gente: ex-gay existe? E ela surgiu depois que a psicóloga carioca Rozângela Alves Justino apareceu defendendo a terapia para curar o “homossexualismo”. No último dia 31, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) decidiu, por unanimidade, aplicar uma censura pública contra a profissional. Rozângela já havia sido condenada à censura pública no Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro em 2007.
Acontece que resolução do CFP de 1999 proíbe os psicólogos de tratar a homossexualidade como doença, distúrbio ou perversão e de oferecer qualquer tipo de tratamento. A resolução segue normas da Organização Mundial de Saúde. Portanto, não havendo doença, não há o que curar.
Lideranças da comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais) defendem a cassação do registro de Rozângela, inclusive porque outros profissionais também estariam atuando da mesma forma, principalmente ligados a religiões.
Rozângela é evangélica e se diz perseguida pelo Conselho Federal de Psicologia, no que ela chama de "Ditadura Gay". Para a psicóloga, as pessoas não são homossexuais, mas "estão". Respeitando a motivação individual, o estado homossexual é passível de mudança. Para a militância, tal opinião contribui para o preconceito e a negação da homossexualidade tanto pela pessoa quanto pela família.
"Ex-gay" é o termo usado para indicar pessoas que alegam ter abandonado comportamentos homossexuais. É bastante discutível, pois a orientação sexual tem sido entendida como inata e fixa. Há quem defenda que ela é definida por questões genéticas. Deste modo, não pode ser modificada. Mas também há quem diga que a orientação sexual se desenvolve durante toda a vida.O fato é que a orientação sexual não-heterossexual foi removida da lista de doenças mentais nos EUA em 1973 e do CID 10 (Classificação Internacional de Doenças) editado pela OMS (Organização Mundial de Saúde) em 1993. Os transtornos de identidade de gênero, que englobam travestis e transexuais permanecem classificados na CID-10. Nestes casos, terapias hormonais e/ou cirurgia de sexo são, algumas vezes, indicadas pela medicina. E aí, ex gay existe?

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Maria Purpurina


A televisão – mais especificamente a Rede Globo – tem colocado em cena a figura da chamada “Maria Purpurina”. A mulher que sente atração por gays.
O caso mais recente e notório é o da personagem Léa, vivida pela atriz Maria Zilda na novela “Caras & Bocas”. Ela é apaixonada pelo gay Cássio, vivido por Marco Pigossi.
No entanto, o caso não é único. Eu diria que tem crescido vertiginosamente. E assusta desconhecer os motivos e os efeitos dessa recorrência. Já em “A Favorita”, outra novela da Globo e em horário nobre, as personagens Céu (Deborah Secco) e Sharon (Giovanna Ewbank), uma das meninas da casa de Cilene (Elisângela), chegaram a brigar por Orlandinho (Iran Malfitano).
O que preocupa não são as tais Marias Purpurinas, mas os gays em dúvida de sua própria sexualidade. A série (outra vez Globo) “Som & Fúria” trouxe o ator Leonardo Miggiorin na pele de um gay que se encantou por uma mulher (Débora Falabella) e confundiu seus sentimentos.
Não que gays em dúvida de sua sexualidade não existam. É justamente isso o que a coerência defende: mostrar a diversidade de manifestações do sexo – em definições e graus. Deixar os rótulos de lado e olhar as pessoas em sua individualidade e subjetividade.
Só que parece cedo esse passo quando outros ainda não foram dados. Parece querer correr antes de aprender a andar. Na cabeça da maioria das pessoas, a homossexualidade ainda é uma condição confusa, que se mistura facilmente com a bissexualidade e a transexualidade. Mais que isso: ainda não temos uma resposta convincente (se é que ela um dia existirá) de como a orientação sexual se define.
Atualmente, quase todas as novelas têm um personagem homossexual. Uns assumidos, outros nem tanto. Sem falar em papéis secundários como o cabeleireiro da madame. Mas esses personagens quase nunca namoram outro homossexual. O tal “Beijo Gay” virou mito. Se não estamos preparados para assistir as manifestações homoafetivas, será que é interessante confundir nossa percepção com personagens que justamente vão em sentido contrário ao que a princípio desejam sexualmente, seja por um momento de incerteza ou característica pessoal? Me erra! Me deixa!

terça-feira, 28 de julho de 2009

Mães lésbicas


Maternidade e homossexualidade são duas práticas incompatíveis? Adriana e Munira tentam provar que não e lutam para ter este direito legalmente reconhecido em nossa sociedade. São duas paulistanas que deram luz a um casal de gêmeos este ano. Adriana recebeu os óvulos de Munira, que se submeteu a uma inseminação artificial.
Elas querem registrar os filhos em seus nomes. Um caso inédito no Brasil que foi parar no programa da Ana Maria Braga. No mundo todo, também é raridade.
Pesquisa apresentada ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp aponta que as mulheres que articulam a maternidade com a homossexualidade tornam-se socialmente vulneráveis, visto que a sociedade considera as duas práticas como incompatíveis. Não raro, elas enfrentam uma série de pressões e se vêem forçadas até mesmo a renunciar à sexualidade ou à profissão para poder exercer o direito de educar seus filhos.
O trabalho foi apresentado pela cientista social Érica Renata de Souza. De acordo com ela, os movimentos homossexuais têm demonstrado cada vez mais organização em todo o mundo. Entre as reivindicações mais frequentes aparecem questões relativas à família, ao casamento e à filiação. Dessa forma, novas práticas sociais surgem à medida que ocorre a associação entre a maternidade e a homossexualidade.
Foram identificados dois perfis de família no estudo. O primeiro – mais comum no Brasil – refere-se a mulheres com um passado heterossexual, mas que se envolveram em relações lésbicas e trouxeram seus filhos para essas relações. O segundo diz respeito àquelas que optaram pela maternidade por meio de tecnologias reprodutivas, como a inseminação artificial.
A pesquisa cita a experiência de uma mulher, Roberta, mãe de dois filhos, que acabara de sair de um casamento heterossexual conflituoso. O marido, usuário de drogas, era muito violento. Posteriormente, ela foi morar com uma mulher. O ex-marido de Roberta tentou obter a guarda das crianças. O juiz concedeu a guarda dos filhos para a mãe, mas condicionou a decisão à saída da sua companheira da casa.
Bastante conservadora, a postura deixa clara que – no entender do magistrado – para exercer o direito de conviver com os filhos, a mãe tinha de renunciar à sua sexualidade e à formação de uma família alternativa. Que meda!